Sábado, Novembro 25, 2017
   
Text Size

Pesquisa

Carta ao Leitor: Envelhecer sem surpresas

leitor

Caro leitor, envelhecer é o processo de vida natural de todo ser humano e estamos vivendo cada vez mais anos.

A expectativa de vida média do brasileiro está próxima dos 75 anos. Viver mais e com qualidade é o que todos queremos, mas será que estamos prontos para isso? Se fecharmos os olhos e nos imaginarmos em nosso aniversário de 75 anos, o que estaríamos fazendo? A resposta não seria estar em um leito de hospital ou em um asilo. Poderíamos ter imaginado estar com amigos e familiares festejando, dançando, ou viajando etc. Com certeza, seria algo alegre e estaríamos bem acompanhados. O que precisamos fazer para que isso não seja apenas um exercício de imaginação, mas uma realidade?

O médico geriatra Alexandre Kalache cita 4 capitais que temos que desenvolver para não sermos surpreendidos negativamente ao chegar na melhor idade.

O primeiro capital é o vital. Ter saúde é fundamental para uma boa velhice. Sem saúde não podemos usufruir das oportunidades que a vida nos oferece. É óbvio que temos que respeitar a biologia do corpo e não achar que poderemos ter o desempenho de quando tínhamos 25 anos. Mas ter uma vida ativa e sem grandes limitações é possível. A receita para isso é conhecida, embora pouco aplicada: diminuir ingestão dos ”brancos”: sal, açúcar, farinha e arroz refinados; não ser sedentário; não fumar e não ingerir álcool. Embora já soubéssemos, os cientistas comprovaram recentemente que as carnes processadas provocam câncer. Essas medidas devem ser adotadas AGORA. Não adianta chegar aos 60 anos e daí querer mudar os hábitos. O grande dilema é conciliar os prazeres de hoje com a saúde de amanhã, pois parece que tudo que é gostoso não faz bem. O fato é que ficamos mal acostumados. Reeducar-se é o desafio e isso quer dizer um processo de mudança no qual ser moderado é a regra de ouro.

O segundo capital é o financeiro. A população está cada vez mais idosa e os casais estão tendo menos filhos, isto é, haverá menos pessoas para financiar o maior número de aposentados. Ainda assim, segundo os consultores de finanças pessoais, a previdência pública ainda é a melhor opção, embora não deva ser única, pois será insuficiente para viver com qualidade. Suplementar com a previdência privada ou por meio de aplicações de longo prazo que tendem a pagar uma taxa de juros maior é necessário. Porém, para poder poupar sem comprometer a qualidade de vida hoje é necessário ter uma boa renda e muita disciplina. A renda mais elevada deve ser fruto do uso da inteligência, dedicação e desempenho dentro de uma organização profissional. Ganhar muito à custa de perder a saúde contradiz com o primeiro capital citado acima. A mesquinhez pode até garantir uma renda maior no futuro, mas não permite viver bem hoje e não gera riqueza. Além disso, quem garante que não iremos morrer em breve? Como diz um ditado popular: ”caixão não tem gaveta”. O grande desafio é saber utilizar os recursos pessoais para gerar renda e encontrar o ponto de equilíbrio entre poupar e gastar com qualidade, garantindo a saúde física, emocional-afetiva, social e mental.

O terceiro capital é o social. A tecnologia muito nos auxilia em vários momentos na vida. Porém, não devemos perder de vista que o contato humano ainda é o mais importante. Reunir, conviver, trocar experiências, ter amigos é fundamental para viver bem na velhice. Já foi provado que as comunidades que acolhem mais seus idosos prolongam suas vidas. Desenvolver habilidades de sociabilização é fundamental, como estar presente de fato em uma relação, sem que um smartphone atrapalhe o convívio e a comunicação. Se damos mais importância para o número de seguidores que temos nas redes virtuais do que amigos na vida real, precisamos repensar nossos valores.

O quarto capital é o do conhecimento. Sem a renovação do conhecimento não será possível participar da sociedade de forma que sejamos sustentáveis. Isto significa que não devemos ser dependentes de outras pessoas porque não temos conhecimento ou habilidades que permitem uma vida autônoma. Hoje em dia, há muitos idosos que têm uma dificuldade enorme de fazer operações em caixas eletrônicos ou de utilizar as tecnologias para se comunicar com as pessoas e acessar informações do mundo. É preciso se renovar e não ficar pensando: ”na minha época que era bom...”.

O grande desafio é não se limitar e estar continuamente evoluindo em todos os aspectos da vida. Ter uma mente viva, aberta e em pleno desenvolvimento não se alcança sem um trabalho contínuo.

Não vamos deixar os anos passarem com displicência e chegar na gerontolescência (adolescência do idoso) e ter a infeliz surpresa de descobrir que se tivéssemos começado bem antes a desenvolver os 4 capitais a vida seria melhor. Temos que nos preparar agora para envelhecer e pensar que viveremos 30 anos mais que nossos avós viveram.
Um abraço,

Fábio Mikio Kikuti
Iniciado