Quinta, Junho 22, 2017
   
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Amor Sem Fim

cpaamorRomance ocultista, baseado em fatos reais ocorridos em 1837. Nele, os personagens buscam formas de reorganizarem suas vidas por meio das explicações de fatos que aconteceram em séculos atrás, porém ainda se refletindo nas atuais situações emocionais e mentais. Mostra em seu enredo, que a eternidade revela a infinidade do amor, que é virtude do Espírito, e como tal é eterno. Autora, Elaine Sanches Morais.

Preço: R$22,00 - ESGOTADO

Leia a seguir o Prólogo deste romance:

Reviver o passado é algo que tem que ser de maneira sadia, então, assim, é sentir a vida vivida das circunstâncias daquilo que um dia foi, para nós, momentos que se eternizaram de acontecimentos, que movimentam nossas energias no presente. Porém, usar essas recordações para movimentar o futuro requer maestria, ou mesmo dizendo, requer uma sensibilidade oculta, que somente aqueles que dominam as leis universais são possíveis de tê-la. Ser sensível neste nível é ser um ocultista, que faz de seu viver uma constante, sem restringir-se pelo tempo que o homem cronometrou em seus aparatos para que pudesse observar mais a compreensão ou melhor, a sensação da Vida, que ele em sua limitada consciência de um homem corrente não consegue abstrair, como a de um homem ocultista.

Assim é o homem que entra no ocultismo, sente e vibra em cada recanto da Vida. Sente as emoções dos humanos e com eles as vivencia; sente a Vida plena dos Superiores e com eles se regozija.

Assim era Gustavo, um homem de grandes conhecimentos, diziam seus conhecidos e amigos, um homem culto, um homem que inspirava curiosidade, que possuía um dom de mando sem autoridade, de poder sem despotismo, de galante sem ser sedutor convicto, essa era a opinião das mulheres que o conheciam e por ele partilhavam a intenção de uma relação amorosa que as fazia vibrar de suspiros e sonhos.

Gustavo era um homem de idade madura, porém não um velho e tampouco, um rapazote. Sua idade não era para ser velho e tampouco era para ser novo. Seus gostos? Sabe-se que era refinado, pelos seus gestos, pela sua cortesia, sua inteligência e de um sorriso que iluminava a alma de qualquer um, mesmo daqueles que se encontravam em Trevas. Era um homem que mostrava vida física e vida, não se sabe donde surgiu, donde vinha e tampouco se sabia se permaneceria; era um homem misterioso, sem ser curioso. Seu porte físico, de homem maduro, chegava a medir um metro e noventa e seis centímetros, não era um gigante, era de compleição bem distribuída e bem proporcionada de peso, não parecia um deus de delicadezas, parecia um homem com vida.

Foi no ano de 1837 que encontrei Gustavo, residindo nesta casa rodeada de um bosque verde-vivo, quando desesperada, fui para França buscar emprego, ou melhor uma esperança de sobrevivência, neste período histórico tão cruel que todos nós passávamos. A fome era um dos problemas, mas não um dos maiores problemas, como me fez ver Gustavo. Dizia ele, que a Humanidade passava, e até agora passa, o maior problema: era, e é então, a ignorância persistente.

Eu provinha de uma família simples, mas de bons costumes como a leitura, a cultura que adquirimos com o meu pai que era francês e possuía uma biblioteca herdada pelo seu avô. Nossos recursos não davam para freqüentar uma escola, mas nosso pai nos supria de tudo que necessitávamos em termos culturais, pois ele, como Gustavo, dizia-nos que a ignorância era a pior miséria que o homem passava e que sempre passou.

Graças a esses estudos que meu pai insistia que obtivéssemos, consegui este emprego de governanta na casa de Gustavo. O cargo, ao qual me candidatei, tinha como requisito conhecimento em três idiomas fluentes na escrita e na fala, pois o compromisso profissional, ao qual eu estava me candidatando, pressupunha-se em atividades de governanta e secretária do senhor da residência magnífica da cidade de T.

Meu francês, língua da pátria do meu pai era impecável, bem como meu castelhano, língua da pátria de minha mãe e sabia também o italiano e o alemão, idiomas exigidos pelo meu pai nos estudos que fazíamos.

Apresentei-me cedo em casa do Sr. Gustavo, que se dizia ser um homem digno, porém misterioso, ninguém sabia mais nada dele do que fosse um médico cientista competente e bondoso.

A procedência de sua fortuna ninguém sabia, quiçá uma herança.

Toquei o timbre e aguardei:

— Sim? Em que posso ajudá-la? — perguntou-me uma senhora de uns cinqüenta anos, robusta, vestida com uniforme limpíssimo.

— Sou Clarice. Vim para ter uma entrevista com o Dr. Gustavo, para o cargo de governanta.

— Espere na sala, que irei informar ao Dr. Gustavo que você chegou.

— Obrigada.

Entrei na sala, logo à direita do hall havia livros numas estantes que circundavam quase toda a sala. As janelas eram altas, quase que alcançavam o teto. Havia uma lareira tão magnificamente construída, que não parecia ter os anos que tinha, pois aquela mansão datava desde o meio do século passado.

Numa mesa havia flores, que combinavam com a tonalidade das cortinas e tapetes.

Sentei-me naquele precioso sofá e aguardei.

Depois de alguns minutos, entrou na sala um homem estupendo, que era tão alto quanto forte, com um porte que me deixou estupefata. Em seu maxilar definia toda a vontade e determinação e um certo ar de severidade.

Até então, estava tranqüila, mas diante de tal força, senti-me muito tensa, minhas mãos começaram a suar e ficaram geladas.

— Senhorita Clarice?

— Sim, sou Clarice — consegui responder.

— Veio para a entrevista pontualmente, já considero isto um ponto positivo. Nem todas as pessoas sabem da importância do tempo como organização de vida. Vejamos... No seu curriculum diz que a senhorita tem conhecimentos fluentes em cinco idiomas e que sua nacionalidade é inglesa, de pai francês e mãe espanhola... Por que veio à França?

— Vim em busca de trabalho, devido a essa época de conflito. No lugar onde vivia está muito difícil a sobrevivência e soube que aqui, no sul da França, a situação estaria mais favorável pelo preparo que tenho.

— Sua família também está vivendo aqui na França?

— Não. Meus pais já estão acostumados e acomodados na Inglaterra e meus irmãos, João e Silvio, estão trabalhando em uma empresa local. Só eu me encontro aqui.

— Senhorita sua idade é de 23 anos, não é isso?

— Sim.

— Sabe que a profissão à qual está se candidatando, além do seu preparo intelectual, requer dedicação total de tempo, pois será uma secretária e uma governanta e terá que viver aqui nesta casa e viajar quando e quanto tempo for necessário e onde for necessário? E seus pais, estão de acordo com isso?

— Senhor, sou responsável por mim mesma e meus pais sabem da minha maturidade e capacidade de conduzir a minha vida, senão, não teria vindo até este país para poder trabalhar.

Fiquei calada, esperando o que aquele homem ia me dizer depois que parasse de me olhar, como se estivesse obseravando até a minha alma.

O silêncio se prolongou por alguns minutos, que pareciam uma eternidade. Tinha vontade de levantar e ir-me, mas eu estava paralisada e não era de medo, era como se algo me segurasse ali e era agradável, embora meu instinto me pusesse de guarda.

Dr. Gustavo levantou-se, acercou-se à mesa onde estavam as flores e pegou umas folhas de papel, que entregou para mim.

— Aqui estão as normas e as atividades que você deverá cumprir enquanto estiver trabalhando comigo. Seu aposento ficará dentro da casa, para quando lhe necessite. Seja rápida. Chamarei Dolores para que a leve a conhecer toda a casa e para que a ajude a se instalar. Esteja em meu escritório daqui duas horas que temos trabalho para fazer.

Girou sobre os calcanhares e retirou-se. Fiquei ali da mesma maneira que me encontrava minutos antes. Só reagi quando Dolores tocou meus ombros.

— Senhorita, senhorita.

— Sim.

— Vamos que lhe conduzirei ao seu aposento e mostrar-lhe-ei a casa.

— Obrigada.

A casa tinha uma escada que fazia curva para a direita e conduzia aos quartos, que eram no total de doze na parte superior da casa, onde eu ficaria instalada. Os empregados ficavam na parte de fora, posterior à casa.

A não ser Dolores, que era a mais antiga e pelo visto a mais querida pelo patrão, não só pelas suas delícias culinárias, mas pelo seu carinho e dedicação a ele.

A casa era rodeada de bosque e jardins, tinha uma piscina grande, ladeada de pinheiros e flores.

— Bom, senhorita, aqui é o meu escritório. E as panelas e o fogão, os meus instrumentos de trabalho — disse-me Dolores, com um sorriso naquele rosto redondo, que denunciava sua bondade e seu bom humor.

— Agora tenho que preparar o jantar. O que a senhorita come?

— Chama-me Clarice, Dolores... Eu como de tudo.

— Menos mal, porque o doutor não come nenhuma espécie de carne vermelha e nem tampouco, usa bebidas alcoólicas diariamente. Com exceção de alguma festa. Não me pergunte porquê, deve ser coisa de médico.

— Vou me preparar para ir ao escritório do Dr. Gustavo, até logo Dolores.

— Até logo, filha, o jantar é às 20 horas.

Vesti-me mais formalmente e fui ao encontro do Dr. Gustavo, em seu escritório. Bati na porta e ele me pediu que entrasse. Sentado atrás de sua mesa de mogno escuro, relaxava-se numa cadeira que para mim seria grandíssima, mas para ele, era a medida certa.

— Sente-se senhorita, à minha direita. Esta escrivaninha será seu lugar de agora em diante, nas horas que estivermos trabalhando.

Era uma mesa alta e larga, ideal para se trabalhar nela. Ao lado, tinha uma máquina, uma beleza de máquina de escrever, nunca tinha visto uma como aquela, era raríssima, só alguns felizardos, donos de fortunas as possuíam e era evidente que o Dr. Gustavo era um deles.

— Senhorita, seu trabalho consistirá em redigir as cartas, enviá-las e assessorar-me. Tem alguma pergunta que queria fazer? Por favor, faça-a para que possamos começar.

— Mesmo nas horas que o senhor não estiver no escritório, poderei estar trabalhando aqui, quando necessário?

— Desta vez ele me olhou, da mesma maneira daquela que parecia querer penetrar em minha alma. Ruborizei, coisa que nunca me sucedia tão facilmente.

— Com o tempo terá muito serviço e deverá permanecer aqui, executando-o. Necessito enviar algumas cartas, mas a mais importante é para o Sr. Gomes, dono daquela farmácia lá no centro. Por favor, anote.

Sua voz era segura e clara, suas idéias jorravam sem empecilhos. Acabamos por escrever dezenas de cartas e pediu que as averiguasse se estivessem perfeitas e que as passasse a ele, para que pudesse assinar. Pediu-me também, que algumas delas eu as levasse, pessoalmente.

Uma delas era a do Sr. Gomes, o dono da farmácia lá no centro.

Josias, o cocheiro, levou-me em todos os lugares que necessitava, com ordem do Dr. Gustavo.

O Sr. Gomes, um senhor de estatura mediana, calvo que usava um óculos redondo, atendia uma senhora, quando cheguei à farmácia.

— Bom dia senhor, trago-lhe uma carta por parte do Dr. Gustavo.

— Bom dia, senhorita...

— Clarice, senhor.

— Clarice, que nome bonito para uma senhorita mais bonita ainda. Então você é aquela que passou pelo rigoroso teste que submete Gustavo aos seus empregados? Parabéns, você deve ser sem dúvida a eficiência em pessoa; além de bonita, é claro.

— Obrigada, senhor, faço o melhor. Aqui está a sua carta, se não presiso aguardar, já me vou...

— Pode ir, querida, veremo-nos mais à noite. Jantarei com Gustavo, saudações a todos.

— Dar-las-ei. Até logo senhor Gomes.

— Até logo, Clarice.

A próxima carta que tinha que entregar não foi ditada pelo Dr. Gustavo, ele mesmo a havia escrito. Entregou-me fechada, para que eu entregasse a senhorita Margareth.

Assim fiz. Chegamos à frente de uma casa de dois andares, com grandes janelas voltadas para a rua, que mostrava requinte e sobriedade. Bati e uma empregada me atendeu.

— Sim?

— Tenho uma carta para a senhorita Margareth por parte do Dr. Gustavo.

— Deixe-a passar — falou uma voz que não era de uma senhorita e sim, de uma mulher, que pude confirmar, ser belíssima. Tinha cabelos ruivos e olhos de uma cor de mel, que davam um contraste com aqueles cabelos longos, cor de fogo. Vestia-se com um vestido de cor púrpura e branco, que a fazia jovial.

— Entre, você deve ser a nova secretária de Gustavo.

— Sim, senhorita. Chamo-me Clarice e tenho esta carta para a senhorita.

Entreguei-lhe e ela, enquanto acariciava o envelope, me observava de cima a baixo, mas não era uma observação profunda, só uma análise crítica de uma mulher que estava acostumada à vida social, portanto, à moda e às últimas tendências que a vida na sociedade poderia dar.

— Você não é francesa. De onde é?

— Sou inglesa, senhorita.

— Percebe-se, pela sua postura...

— Se a senhorita não tiver nada que enviar, ir-me-ei. Já se faz tarde.

— Espere, escreverei uma carta breve e você a entregará para Gustavo.

Esperei e depois de alguns minutos, a senhorita Margareth me entregou uma carta perfumada, que estava num envelope pequeno.

— Pode ir, não tenho mais nada.

— Adeus, senhorita.

A porta se fechou atrás de mim. Voltei à casa do Dr. Gustavo e encontrei-o no escritório, onde entreguei-lhe a carta da senhorita Margareth e relatei-lhe toda a trajetória que fiz.

Ele apanhou o envelope e colocou-o sobre a mesa e não o abriu até que saí para preparar-me para o jantar.

A sós, Gustavo leu a carta de Margareth, que coquetemente, lhe agradecia a atenção de tê-la convidado para o jantar em sua casa. Gustavo se sentou, repousou os braços nos descansos da poltrona e esticou as suas pernas, que mesmo estando esticadas, ficavam altas em relação à poltrona. Seu olhar estava distante e sua feição era pensativa. A distância que seus olhos atingiam era a de uns anos atrás, numa época a que ele ainda não tinha nascido, mas sabia que já existia.

Via a si mesmo, como um homem loiro e alto, distinto do homem moreno e alto que era agora, mas não distinto em caráter. Tinha profissão semelhante a dele, morava numa casa diferente, mas era ele, tinha a certeza disto.

Ficou ali várias horas, vendo cenas do seu passado, que traziam a ele, um saudosismo e uma vontade de achar o que lhe faltava e sabia que encontraria através dessas recordações, que ocorriam freqüentemente, mas que atualmente, estavam mais aguçadas e sensíveis, ocorrendo, às vezes, nítidas e às vezes, em flash por todo o dia, nas horas mesmo de trabalho, mesmo que estivesse concentrado em seus afazeres, ele via imagens do seu passado.

Despertou de suas visões, quando ouviu a voz de Dolores, chamando-o.

— Dr. Gustavo, está na hora de se preparar. Logo os convidados chegarão.

— Certo, já estou indo. Obrigado, Dolores.

Muito contrafeito, levantou-se e dirigiu-se ao seu aposento, pensando que gostaria logo de resolver aquela situação em que se encontrava, com as visões do seu passado, que apesar de tê-lo apreensivo, causava-lhe uma sensação de bem-estar, que enchia-lhe o peito. Não queria afastar-se daquelas cenas, como que se esperasse por outra cena que o faria feliz e realizado. Aguardava, ansiosamente, rever não sabia exatamente o quê.

Mas o presente lhe chamava, tinha que receber os seus convidados, mesmo que contrafeito. Havia uma responsabilidade em relação à vida social, que não lhe fazia graça de maneira alguma.